LUCAS NA PRAIA

 

Para Mariana

 

Como um miúdo gato, desengonçado e dourado, o garoto salta as barbatanas da onda.

Rendida, cansada, splash e redonda, a marola desmaia sua espuma em seus pés.

 

Destemido, o moleque toma coragem, aspira a maresia e grita com ecos, batendo no peito, Tarzã dos pequenos, ele corre, destemido é que corre, corre, sobre a onda que então recua, como uma dama em mesura, revelando suas súbitas anáguas de areia e seus vidrilhos de restos de conchas.

 

A onda, como que foge, foge desse ímpeto do príncipe valente guardião dos castelos de grãos. Acanhada, a onda escapa.

 

Mas logo ao longe, divisa-se a onda grande que vem, de antes da arrebentação, renovada, gorda como uma mulher prenha, acelerada, com a crista envergando seus chicotes, e que num instante se parece um dragão.

 

Quando ela explode, Lucas se vira e corre pra areia, em zigue-zague, fugindo da explosão:

-Você não me pega, Netuno, me pega não. E, logo, driblada a onda, ele gira e avança novamente e pisa a marola com uma gargalhada, fazendo a água descansar em borbulhas breves seu sal nos seus pés. Que dragão que nada, bichinho lambendo seu pé...

 

Um embate assim, meio luta, um pouco valsa, entre um menino e seu mar, entre a constância infantil e a eternidade, é entrevero que nunca se acaba. Entra pela tarde adentro, até o sol se cansar. Entra pela vida adentro fazendo uma raiz que puxa a melhor seiva na memória. O garoto não sabe, mas na verdade, sua alma se abastece em cantis.

 

Cantis que serão necessários, a mãe sabe, quando ali, sentada na areia, observa. Serão necessários, a vida tem desertos, afinal. Mas a mãe agora observa somente.

Lucas ali, vitorioso, erguido em incensos e lumes, nos olhos da mãe...

 

Aquela mãezinha, sentada na areia, que tanto capitaneou as marés, com suas boiazinhas de braço, suas enroscadas chiquinhas, agora ali, mãe, ainda menina quase, mas mãe... ali, olhando o milagre, reconhecendo aquela água que já, inteira, foi sua, com seus suspiros transatlânticos, com seus segredos de náufragos, com suas lágrimas de amantes, com o sangue de pescadores, com canções de Caymi, e que agora beija os amanhãs de seu filho.

 

Aquela mãezinha observa, no vai-vem de oceano e criança, o ciclo da vida. A corrente, que passa, miraculosa, colar de contas de Deus, pérolas que cantam, planetas viventes, róseas pedras videntes, pássaros com hélices nas asas, peixes de prata, tudo é do seu filho agora, porque ela teve a coragem de vencer o medo e tê-lo, pra poder dar a ele essas memórias. A ele, o filho.

 

Sim, porque essa mãe, ela poderia não tê-lo. Não parir, hoje, cada vez mais, é uma triste opção. Mas aí a corrente estaria rompida, e haveria pra sempre uma brecha em seu peito, um rasgo, uma escara, uma faca dessas que jamais cala seu fio aguçado. Mas ali está, essa mulher completa, olhando o jardim de alegrias do filho. E a mãe pensa, quem poderia viver, respirar, sem ter conhecido Lucas, seu filho? É assim que Deus pensa.

 

Seu filho, senhor do universo, que abre os braços e controla os mares do Atlântico...

 

Este é Lucas na praia.

 

Um espetáculo.

!!!